Narradores

A forma como os espanhóis utilizam a palavra Narrador chega a causar alguma inquietação, mormente quando o sujeito em questão somos nós. Depois das apresentações chega-se ao "un narrador de gran calidad!" Da mesma maneira como os brasileiros banalizam  "márávilhoooso!", não sei se estão a entender. Se há palavra por que eu tenho respeito  Narrador é uma delas. Por isso, não posso evitar um certo pudor.

 

A primeira vez que vi um narrador a sério eu devia ter doze anos. Foi durante uma viagem de estudo à Siderurgia Nacional - das poucas coisas que valem verdadeiramente a pena na escola. Era um homem forte e determinado, entre os vários que trabalhavam no Alto Forno. Impressionou-me sobremaneira a forma como dominava o fluxo incandescente, que fazia descer por uma calha até se transformar numa futura barra de aço. Em cada dez segundos repetia aquele gesto com perfeição estudada.

 

Ali estava uma verdadeira narrativa. Palavras seriam despropositadas. Narrava com os movimentos medidos e pressurosos, envolto numa nuvem de fuligem. Foi a primeira narrativa de fôlego a que assisti. E agora que penso nisso, apercebo-me de que terá havido outras antes, talvez não tão intensas. Em São Nicolau havia uma forja que eu gostava de ir espreitar, à entrada de Ribeira Brava. Mas recordo-me particularmente de uma ida ao trapiche de caneca de esmalte na mão e olhar para um velho de olhos verdes e barba branca. Devolveu-me a caneca em silêncio, com a espuma da calda quente a transbordar. Continuou depois a tarefa de mexê-la, vagarosamente, com uma cana.

 

Um dia, quando atravessava uma rua de Moscavide, vi outro narrador desses. O Sol queimava-lhe no fato-macaco enegrecido e ele derramava brita, com uma pá, sobre o alcatrão fumegante. A mesma atitude, o mesmo silêncio. A mesma condição.

 

E não muito tempo depois, já adolescente, ficava à porta das oficinas, fascinado pelo trabalho de soldadura dos operários. A cicatriz indelével unindo chapas de aço maciças ou cosendo o ventre de navios, como uma assinatura de fogo. Um dia deixaram-me espreitar pela máscara de protecção e  vi o verde-vivo daquela frase incandescente desferir um arco de poesia.

 

Agora que penso nisso, dou-me conta de que narrar sempre teve que ver com o calor. Não um calor abstracto, transversal e unânime. Foi sempre um calor muito particular - selvagem e indómito. Um calor de corpos em fusão, de serena combustão, para o qual nada encaixa melhor do que a palavra inglesa "melting". "Melting" lembra o quê, na verdade? Mel, não é? Mel quente, melaço quente e escorregadio. Lava incandescente. O homem do Alto Forno manejando o embrião mole do aço duro e resistente. Devíamos adoptar essa palavra, uma espécie de Melar, para o português. Já temos o mel.

 

Narrar é melar, derreter, manejar o fogo.  Sem palavras. O homem e  a história do preciso instante exposta e absorvida pelos sentidos. Essa foi a minha primeira literatura. Aquela a que eu gosto mais de regressar. Que eu procuro nos livros que leio. Na verdade, a que um dia gostaria de poder igualar. 

publicado por Joaquim Arena às 16:30 | link do post