Quarta-feira, 10.12.08

Semana Lusófona, Torres Novas, Outubro

 

O jornalista Carlos Pinto Coelho abriu de rompante o debate, insurgindo-se contra a vassalagem do português face ao inglês. Conceição Queiróz (jornalista da TVI, "Meninos da Jamba"), coitada, não estava à espera de algumas reprimendas sobre o português maltrado na televisão. Sem culpa nenhuma, é verdade. Maria Lúcia Lepecky, catedrática brasileira de Literatura, citou um autor amigo brasileiro: " O problema de Portugal é o mesmo de uma pulga que pariu um elefante! Como é que uma pulga muda as fraldas a um elefante??" Rui Horta (escritor infanto-juvenil, dirigente de biblioteca na Cova da Moura) bem tentou falar de bibliotecas, da sua importância, enfim... não ficou muito amigo do Carlos. Paciência.

publicado por Joaquim Arena às 11:46 | link do post | comentar

Sir Vidia, o génio e o monstro

Esteve em Lisboa, há poucas semanas, para uma leitura, num auditório da Fundação Calouste Gulbenkian a abarrotar. Sir Vidia Naipaul pareceu francamente cansado e envelhecido, já leva 75 anos de vida, mais de 50 de viagens e escrita. Tem sérios problemas de audição, socorrendo-se quase sempre do apresentador. Leu trechos de "The Enigma of the Arrival" (1987) e aturou a nossas perguntas. Entre elas se a escolha de Moçambique para situar "Uma Vida Pela Metade" (uma brilhante crónica do fim do Império Português), se devia à existência de uma antiga comunidade indu na ex-colónia portuguesa. Olhou, olimpicamente, para este escriba e disse: " Apenas um  acaso. Acabei ontem mesmo de saber que em Moçambique existia uma comunidade indiana..."

 

O que ele não sabia é que nas mãos eu segurava "The World is What it is", biografia de Sir Vidia, magistralmente elaborada por Patrick French e, pasme-se!, (pela surpresa) com a anuência total e absoluta do próprio Naipaul (a intuição de que essa obra maior, a vida, ele não a podia escrever... nem esconder). Entre os dedos eu sentia o peso a sua história de estudante acabado de chegar de Trinidade e Tobago, as primeiras tentativas para viver da escrita, na Londres dos anos 50, a sua irrascibilidade e desprezo pelos seus compatriotas, o seu snobismo, o seu look racista, a sua guerra com Derek Walcott e Paul Theroux; as suas fobias e psicoses (limpeza... limpeza), enfim, a sua confissão de como agrediu Margaret, amante argentina, numa relação sado-masoquista, "Até sentir a mão doer..."

Ou, com a mulher Pat, às portas da morte com um cancro, ter revelado numa entrevista ter sido, ao logo dos anos, um frequentador de bordéis, aquilo que em bom português se designa por um excelente putanheiro...

 

Mas a biografia revela também o seu génio literário, a capacidade de análise meticulosa que o ajudou a eleger o mundo como tema da sua obra. O primeiro escritor de origem indiana a receber um Booker Prize (In a Free State, 1973); o primeiro a escrever sobre as sociedades pós-coloniais, quando ainda havia muitas colónias por libertar. O homem que daria ao mundo uma obra-prima como "A Curva do Rio". Enfim, a escrita precisa de um homem a contas com o seu semelhante e uma doentia incapacidade de realização sexual.

 

Lyndon Kwayse Jonhson, poeta de origem jamaicana, dá uma bela descrição de Sir Vidia:

"É o exemplo típico de como a arte é capaz de ultrapassar o Homem; sempre que abre a boca, Naipaul só diz asneira, mas os livros são sempre fantásticos."

 

Nalguns aspectos, V.S. Naipaul fez-me lembrar o nosso saudoso João Varela (pseud. João Vário,  T Tiofe): a irrascibilidade e misoginia e algum complexo de superioridade que lhe eram conhecidos. Poucos sabem da sua zanga com o poeta Corsino Fortes, de longos anos, depois de este o ter apelidado de Poeta Negro Greco-Latino. O mesmo Corsino conta como numa viagem para Angola, o então neurocirurgião Varela dizia que esperava convencer as autoridades angolanas a permitir-lhe fazer experiências em pessoas, testando as suas teorias, com cujos resultados acreditava poder vir a receber o Nobel da Medicina.

 

 

Lembrei-me dele, também, pela qualidade superior da sua poesia e da enorme capacidade de análise teórica que o caracterizava.

publicado por Joaquim Arena às 10:37 | link do post | comentar
Sexta-feira, 05.12.08

Da Pedra e da Palabra, Galiza, Outubro

Foto tirada em Pontevedra, após recepção na Deputación.

 

O melhor destes encontros com nomes pomposos (Bienal de Literatura Internacional) são as figuras que acabamos por conhecer. Para além do vinho e da comilança, pois claro. Na gótica Santiago de Compostela apareceram escribas, como o nervoso Kanat (Kazaquistão) revoltado contra a invasão da língua russa no seu país; o sorridente Solomon (Etiópia), Subhru, o verdadeiro arnaca do elefante Salomão, de Saramago, de Bengala (Índia) - que merecerá aqui um destaque especial, - e outros das Filipinas, Irão, Benim, Angola... numa Babel passeada de autocarro pullman das Rias Baixas à Finisterra.

 

 

Em vez de  darmos a conhecer o nosso trabalho, vemo-nos numa espécie de Festival da Eurovisão das Letras, onde cada um é empurrado para o papel de representante do torrão natal (sem qualquer tipo de mandato para o efeito). Justo Belokia, poeta de Bioko, na Guiné-Equatorial e o olhar arguto do professor Quiroga, lusitanista da Universidade de Vigo.

 

 

Gao Xijiang (1940, Jianxi, China) Nobel da Literatura de 2000, a estrela maior da companhia, desceu da sua "Montanha da Alma" para mariscar nas Rias Baixas e provar o Alvariño, pelo meio-dia. Encantou-se com a cultura galega. E essa terra, esse país, com o nome estranho de Cabo Verde: "Ah! Cesariá Evorrá?"...

 

 

publicado por Joaquim Arena às 16:14 | link do post | comentar
Quinta-feira, 04.12.08

Feira do Livro e da Edição de Sta. Cruz de Tenerife

Os Canários estão a descobrir Cabo Verde. Os Cabo-verdianos estão a descobrir as Canárias. Começou nos negócios, no turismo e nos transportes. Agora chega a vez da literatura, a mesma curiosidade. Uma nostalgia por África revelada mais pela geografia e a busca de um sentido. A eterna busca dos ilhéus. E a invenção de uma região: a Macaronésia. 

 

Parece Mindelo. Poderia ser São Vicente. As mesmas montanhas, a mesma cor, o pó que entranha. É Santa Cruz. Tem universidades, ópera e auto-estradas. Muito turismo. 

 

 

 A agricultura praticamente desapareceu. Para quê? O turismo paga tudo. Num relance, até parece Santo Antão. Mas falta-lhe o cheiro da cana e dos trapiches. 

 

A

 Malta Toda em jantar de despedida. Manuela Ribeiro, das Correntes d´Escritas; o poeta angolano Eduardo Bettencourt, entre outros. Manecas Costa, ao centro, animador de serviço a deixar saudades aos canários.

 

 

 

publicado por Joaquim Arena às 11:33 | link do post | comentar

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