Entrevista possível ao Conde de Silvenius: “Já fumei mais de quatro maços de cigarros, estou só a leite...”

 
 
 
Estavas à espera desta notícia?
Sim. Na última vez que estive aí, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, já se falava nisso.
Como reagiste?
Recebi um telefonema de alguém com sotaque brasileiro a dizer que eu tinha ganho o Prémio Camões e pensei: bom, o dia 1 de Abril, o das Mentiras, já passou, assim como o Carnaval, por isso deve ser mesmo verdade...
Que estavas a fazer, na altura?
Estava no computador do meu sobrinho a colocar os acentos no meu próximo livro...
Já tem título?
... O ministro da Cultura de Portugal também ligou, logo a seguir, a dar-me os parabéns. Mas o (poeta) Corsino Fortes ligou-me também a confirmar tudo e então aí eu fiquei mais descansado.
E que vais fazer com os 100 mil euros de prémio?
Ainda não pensei muito nisso... se calhar fumar um maço de cigarros a mais por dia... e vou oferecer um carro novo à minha noiva.
Achas que alguma coisa vai mudar na tua vida?
A minha vida? Calças jeans coçadas, chinelos de borracha como sempre, e sem esquecer o meu chapéu, claro... e a a franja e o cabelo pintado, também. Mas o título do meu próximo livro já to posso dar: “Poema, a Viagem, o Sonho”.
E já está pronto?
Foi integralmente escrito num telemóvel.
Telemóvel?
Sim. A uma média de dois, três textos por dia. Tem cerca de 120 poemas, entre curtos e longos. Pesa mais ou menos o mesmo que o livro dos 100 poemas da Sofia (de Mello Breyner Andersen)
É o teu quinto livro, não é?
Sim.
Não achas que é pouco para um Prémio Camões?
Olha lá, Juan Rulfo também não escreveu apenas dois livros (Pedro Páramo e Planície em Chamas) e não foi Prémio Nobel da Literatura? E Baudelaire? As Flores do Mal, colocados numa balança, pesam menos do que o meu próximo livro.
E já tens editor em Portugal?
Antigamente andava atrás deles. Agora acho que vou fazer um leilão...
Tens um livro publicado em Portugal,”No Inferno”, na Editorial Caminho.
Sim. Mas o Zeferino Coelho estava com problemas para o vender. Deu-me cem contos, na altura, mas nem sei ao certo se conseguiu recuperá-los.
Achas que ainda não tens nome, fora de Cabo Verde?
Alguém me disse, há pouco tempo: “ Se já tivesses editado no Brasil já terias ganho o Prémio Camões”. Mas agora as coisas mudam de figura.
O Prémio caiu-te de pára-quedas?
Para essa eu tenho uma boa resposta, escuta, escrevia-a mesmo esta manhã: “O mundo caiu-me em cima embrulhado num cheque de 100 mil euros...” (pausa) “eis uma boa razão para eu protelar a minha morte” (pausa), que tal?
E já pensaste no teu discurso na cerimónia da entrega?
Estou sem passaporte. Tenho passaporte português e cabo-verdiano, mas neste momento nenhum está válido. Mas isso eu trato em dois dias, não é?
E quando vens a Portugal?
Por mim ia já hoje. O único problema é ter que usar fato e gravata, nessa coisa da cerimónia. E se eu levar só o casaco? Podia vesti-lo sem enfiar os braços, como o Jaime Figueiredo. Mas estou a pensar em antecipar a minha ida. Ando muito cansado com esta coisa do Prémio Camões, sabes? Estou só a leite, desde ontem... e já fumei mais de quatro maços de cigarros.
 

 
publicado por Joaquim Arena às 21:26 | link do post | comentar