Arménio Vieira, Prémio Camões 2009: A pacata rotina de um Eleito do Sol

 

Arménio Vieira, Prémio Camões 2009, vai ter a sua pacata rotina alterada nos próximos dias. As chamadas telefónicas e os pedidos de entrevistas dos jornalistas irão chover, é um facto. Para um homem pouco dado a entrevistas a situação anuncia-se, no mínimo, catastrófica. Refugir-se-á no seu “Castelo”, o andar misterioso que o poeta habita, no Plateau, a zona histórica da Cidade da Praia?
Tudo indica que não. Arménio Vieira não é dos que vive em busca de fama ou do estrelato. Será um incómodo, pois claro. E a sua pronta reacção à atribuição do Prémio: “Eu estava à espera de ganhar, não pensava era que fosse tão cedo” não deixa de conter um sedimento daquela vaidade salutar de quem não está para estas “miudezas” de prémios literários. A vida vivida uma manhã, uma tarde de cada vez. Sessenta e oito anos de idade, numa face jovial de poeta sem tempo.
Irá continuar a frequentar a sua segunda casa: a esplanada do Café Sofia, na Praça do Liceu, na Praia. E, como sempre, ocupará o centro das atenções dos amigos, colegas, literatos, populares, que ali se sentam atraídos por aquele olhar rebelde de eterno “Rimbeau das ilhas”. Nele vêem mais do que um simples poeta da terra. O escritor que um dia resolveu sair de Cabo Verde e escrever uma surprendente novela – O Eleito do Sol - passada no Antigo Egipto. E o deserto ali tão perto.
Apesar dos 100 mil euros embolsados com o Prémio, Arménio Vieira não deixará de surgir pela rua, quando o sol é mais clemente, de SG entre os dedos, sandálias ou chinelos, calças arregaçadas como um pescador de Raul Brandão (confesso  admirador do escritor português). Fará um aceno junto à barbearia da esquina, antes de se sentar na esplanada para mais uma tarde de imensa e sempre surpreendente prosa.
De um dos lados estarão aqueles  que querem continuar a auscultar a sua douta opinião sobre os resultados da última jornada do campeonato regional de futebol; que se dirigem ao mestre em crioulo e no seu prosaico crioulo de badiu branco escutam aquela prosa humorada de saber e ironia.
Do outro lado, estarão talvez o poeta lírico Mário Fonseca, ou outro literato, jornalista ou professor universitário da capital ou de passagem; aguardarão, avidamente, o seguimento de uma reflexão sui generis sobre os hábitos de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, ou de como Sócrates resolvia os seus dilemas pessoais.
E se o tema for – como habitualmente acontece - o mundo e as pessoas, os mais sortudos terão o privilégio de saber como eram as ruas de Samarcanda ou de Tashkent, nos anos setenta, e como era viajar pelas Repúblicas da Ásia Central, como jornalista, numa delegação do Partido Comunista da União Soviética. Se o mestre estiver inspirado, ficarão a saber como a Bíblia, lida numa cadeia da PIDE, aos vinte anos, pode ser incontornável companhia para a solidão e profundamente inspiradora para uma carreira literária.
Antes do sol se pôr, o cinema será inevitável: Brando, Fonda, Bogart, Rita Hayworth, Marilyn, Ford, Welles... frases inteiras memorizadas por este fanático de “Há Lodo no Cais” (as mangas viradas, imitando a estrela Brando/Terry Malloy ) e James Dean, mas também Johny Depp, Brat Pitt, Denzel Washington e Morgan Freeman.
Os filmes da sua vida passar-lhe-ão pelos olhos, numa alucinante e vertiginosa torrente de títulos: westerns,  realismo alemão, russo, italiano. A tarde continuará lenta e em viagem, por entre duas dezenas de cigarros comprados em pacotes a candongueiros de passagem e breves pausas para um “tete à tete” com alguma das suas “meninas” de ocasião. Vestígios, quem sabe, de paixões outrora avassaladoras, irresistíveis, pagas com dor e amizade, aliás como o próprio Arménio descrev, em tom confessional, no mais do que autobiográfico romance “No Inferno”.
Mas não se espere que ele vá falar da sua obra – dois livros de poemas (“Poemas” e “Mitografias”) e dois romances (“O Eleito do Sol” e “No Inferno”). A obra, aparentemente escassa, é lapidar, para ser digerida com o caldo do tempo. Própria de um autor evasivo e arredio a avanços intempestivos de editores e jornalistas, apressados agentes literários acidentais, preocupados com a sua mais que alietória produção.
No final do dia - depois de uma longa viagem por Hollywood, através dos problemas existencias de Pessoa, Grécia antiga, a enigmática revelação de São Paulo no caminho de Damasco -, Arménio Vieira perguntará as horas e dirá, erguendo-se: “Bem, meus senhores, está na hora do Comboio para Katanga...”. E levantar-se-á, de cigarro nos lábios, para regressar ao seu “Castelo”, onde o esperam mais horas de futebol e cinema, pela noite dentro, nos muitos canais de televisão, via antena parabólica - a última janela para a eternidade.
 
 
publicado por Joaquim Arena às 21:24 | link do post | comentar