O que viu Flora Tristán na Praia, enquanto sonhava com o Paraíso

Onde se encontra o Paraíso? Na construção de uma sociedade igualitária ou no retorno ao mundo primitivo? A pergunta percorre todo o romance O Paraíso na Outra Esquina (2003, Dom Quixote), obra de extraordinário fôlego histórico do escritor peruano Mário Vargas Llosa. Nela seguimos a busca pela utopia levada a cabo por Flora Tristán (1803 - 1844) e, décadas mais tarde, pelo seu próprio neto Paul Gauguin (1848 - 1903, que obviamente não chegaria a conhecer), este a caminho do Tahiti - farto da decadência parisiense. Diz-se que o próprio Carl Marx se baseou nos textos desta francesa de origem peruana para escrever o seu Capital, em meados do século XIX.

 

Antes de iniciar essa busca pela sociedade igualitária, a fundação da sua União Operária, Flora Tristan passou pela Cidade da Praia, a caminho do Peru. A pena mágica de Vargas Llosa recria essa Praia de apenas quatro mil habitantes, dos anos trinta do século XIX, onde Flora veria "o verdadeiro rosto, espantoso, indiscritível, de uma instituição que apenas conhecias de ouvido: a escravidão."

 

Em duas páginas (122, 123) LIosa faz Flora Tristán assistir à punição de dois escravos levados a cabo por dois soldados suados, na capital cabo-verdiana. Fica-se a saber que "todos os brancos e mestiços da Praia ganhavam a vida caçando, comprando e vendendo escravos."

 

Durante os dez dias que passou na capital da colónia portuguesa, Flora ficaria fortemente impressionada com "a viúva Watrin, alta e obesa matrona cor de café com leite, cuja casa estava cheia de gravuras do seu admirado Napoleão e dos generais do Império, que, depois de te oferecer uma chávena de chocolate com pasta de cacau, te mostrou orgulhosa o adorno mais original da sua sala de estar: dois fetos negros, a flutuar nuns aquários de formol." 

 

O principal terratenente da ilha, "monsieur Tappe, francês de Bayonne, era um cinquentão roliço e congestionado, de olhos libidinosos. Tinha 28 negros, 28 negras e 37 negritos, dizia, graças a 'Dom Valentim' - o chicote que trazia enrolado à cintura - 'se portavam bem'"

 

Vargas LIosa faz ainda Flora Tristán travar conhecimento também com um certo capitão Brandisco, um veneziano: "(...) mostrou-lhes um baú com fiadas contas de vidro, que, gabou-se, trocava por negros nas aldeias africanas."

 

E lá seguiu Flora Tristan, rumo ao Peru, fugindo de um marido violento e em busca de um pouco da fortuna da sua família descendente dos vice-reys da ex-colónia espanhola. Ainda vinham longe os anos da luta social, a sua batalha contra os empregadores, pelos primeiros miseráveis e a ignorância de toda uma sociedade já presa nas malhas da Revolução Industrial. Mas a consciência social e a luta por uma sociedade mais justa estava em formação.

 

 

 

publicado por Joaquim Arena às 19:57 | link do post | comentar