Daddy Grace, o cabo-verdiano que queria ser Deus

Façamos uma lista dos cabo-verdianos mais excêntricos da História. Por muito que pensemos nenhum se poderá comparar ao pastor evangélico "Sweet" Daddy Grace (1881 - 1960), o jovem Carlos Marcelino da Graça, que deixou a ilha Brava, aos 19 anos, para se tornar num dos maiores líderes religiosos da América, no século XX.

 

À data da sua morte, Graça, tornado Grace, morava numa mansão com dezenas de quartos, a sua igreja United House of Prayer for all People (uma espécie de Igreja Universal do Reino de Deus actual) tinha mais de três milhões de fiéis, através dos Estados Unidos. E, last but not least,  deixava ainda uma fortuna avaliada em mais de 80 milhões de dólares.

 

No seu livro "Daddy Grace, A Celebrity Preacher and his House of Prayer", Marie W. Dallam (New York University Press, 2008) põe a nu esta extraordinária vida desta personalidade cabo-verdiana que forjou o seu próprio mito e fez correr, durante anos, rios de tinta nos jornais de Nova Inglaterra.

 

Se já eram conhecidas algumas frases prosaicamente inspiradas de Grace - "Se pecares contra Deus, poderei absolver-te, mas se pecares contra mim nem Ele te poderá salvar!", "Se Moisés um dia aparecesse por aí - apontando para o peito - ele haveria de gostar deste tipo!" - assim como os milagres conseguidos pelas famosas Daddy Grace Tooth Paste (Pasta dos Dentes Milagrosa), a revista Daddy Grace Magazine ("Dores de barriga? É so deitar-se e massajar a barriguinha com a Revista Milagrosa que isso logo passa") ou as Sopas Daddy Grace, e toda a panóplia de merchandising para os fiéis consumidores, o livro de Marie Dallam revela outras facetas curiosas do pastor crioulo.

 

Pela primeira vez, ficamos a conhecer alguns aspectos dos seus primeiros anos na América, da sua família e da sua primeira mulher, bem como dos primeiros empregos que teve, enquanto Marcelino da Graça. Há ainda as acusações de violação, o difícil relacionamento com os filhos, e as férias passadas na sua hacienda de Cuba.

 

Numa época em que a pobreza e a miséria grassavam entre os emigrantes e principalmente a população negra, estavam criadas as condições para os profetas e os salvadores dos bons cristãos. Um pouco por todo o lado surgiam igrejas pentecostais e similares, com pastores ad hoc reunindo em tendas os deserdados da sociedade, aliás como mostra Robert Duvall, no seu recente filme "O Profeta".

 

Depois da crise de 1929, com a ruína de Wall Street e da economia mundial, as massas de miseráveis aumentam, assim como os templos, que vão surgindo como cogumelos, um pouco por todo o lado. Mas nesta altura, já Grace tem lançado as bases da sua House of Prayer, nos estados da Nova Inglaterra, de West Wareham a Charlotte, na Carolina do Norte. E a competição e o choque com outros "salvadores de almas", como era de se esperar, é inevitável.

 

Entre as vários líderes religiosos que se digladiavam pela fé das comunidades negras, estavam Elder Michaux e Father Divine que, para escândalo dos restantes, acabava de se proclamar Deus. Father Divine tinha o  quartel-general da sua organização, chamado "Number one Heaven", qualquer coisa como "Primeiro Céu", em Harlem, Nova Iorque.

 

Em resposta a esta proclamação divina, Grace, irritado, declarou-se ainda mais poderoso do que Divine e Elder Michaux. No entanto, como relata o jornal Afro-American, Grace não tinha muitos argumentos para refutar tão altiva proclamação. Matreiro, o crioulo tornado pastor esperou pela sua oportunidade. E esta chegou quando descobriu que o palacete que albergava o "Primeiro Céu" de Divine era arrendado e que o banco proprietário procurava um comprador para o mesmo. Grace avançou de imediato e fez uma oferta irrecusável.

 

O próximo passo foi anunciar publicamente que iria despejar Father Divine e instalar o seu próprio quartel-general em Harlem, no mesmo palacete. Adiantou que "qualquer membro da outra igreja que queira conhecer a verdadeira palavra do Senhor será bem-vindo..." Quanto a Divine, Grace, num suspiro, expeliu todo o seu sarcasmo: "Não o expulsarei de Harlem... Deixá-lo-ei ficar. Pobre homem... dar-lhe-ei paz e caridade."

 

E a Divine, claro, só lhe restou dar de barato as palavras do rival: " O Reino do Senhor não está...  sujeito a lugares terrenos."

 

Mas Grace aproveitou para arrematar lapidarmente a questão: "Ele, que se proclamou Deus, que vá agora explicar ao seu rebanho como é que Deus Todo-Poderoso pode ser despejado da sua própria casa!"

 

Um repórter do jornal Amsterdam News escreveu, na altura: "Mesmo os anjinhos de Father Divine, atarefados em retirar as mobilias e os tarecos de 'Deus' para fora do seu reino, colocavam-nos no camião de mudanças e observavam, à distância, o homem que, embora não fosse Deus, acabava de expulsar Deus do seu paraíso."

 

O livro de Marie Dallam desvenda ainda um pouco da vida pessoal de Grace: o filho esquizofrénico a monte, durante anos, depois de fugir do hospital psiquiátrico; a morte do filho mais velho num acidente de automóvel, as verdadeiras digressões religiosas, com requintes e caprichos de estrela do music-hall, com fanfarras e cadillacs espampanantes à sua espera em cada uma das cidades. No entanto, um episódio mais caro a nós, cabo-verdianos, não terá sido considerado pela autora.

 

Uma das bases do misticismo residia no facto de ter ele ter "vindo do outro lado do mar" , como gostava Grace de relembrar - característica, aliás, comum à maioria dos profetas. Um aspecto referenciado nas Escrituras, que os fiéis por certo não ignoravam, é que quem fala directamente com Deus, fá-lo normalmente em línguas estranhas, incompreensíveis - "speaking in tongues". Conta-se que durante uma sessão com os fiéis reunidos, Grace, que passara a presidir imperialmente os eventos, como um César - em silêncio, deixando para os seus ministros a rotina litúrgica - reconhecou entre o público um conterrâneo da Brava. De imediato se levantou, agradado, dirigindo-se em crioulo ao velho amigo.

 

Se dúvidas houvesse quanto aos seus poderes, elas dissiparam-se todas naquele preciso momento. 

 

 

 

publicado por Joaquim Arena às 11:51 | link do post | comentar