Sir Vidia, o génio e o monstro

Esteve em Lisboa, há poucas semanas, para uma leitura, num auditório da Fundação Calouste Gulbenkian a abarrotar. Sir Vidia Naipaul pareceu francamente cansado e envelhecido, já leva 75 anos de vida, mais de 50 de viagens e escrita. Tem sérios problemas de audição, socorrendo-se quase sempre do apresentador. Leu trechos de "The Enigma of the Arrival" (1987) e aturou a nossas perguntas. Entre elas se a escolha de Moçambique para situar "Uma Vida Pela Metade" (uma brilhante crónica do fim do Império Português), se devia à existência de uma antiga comunidade indu na ex-colónia portuguesa. Olhou, olimpicamente, para este escriba e disse: " Apenas um  acaso. Acabei ontem mesmo de saber que em Moçambique existia uma comunidade indiana..."

 

O que ele não sabia é que nas mãos eu segurava "The World is What it is", biografia de Sir Vidia, magistralmente elaborada por Patrick French e, pasme-se!, (pela surpresa) com a anuência total e absoluta do próprio Naipaul (a intuição de que essa obra maior, a vida, ele não a podia escrever... nem esconder). Entre os dedos eu sentia o peso a sua história de estudante acabado de chegar de Trinidade e Tobago, as primeiras tentativas para viver da escrita, na Londres dos anos 50, a sua irrascibilidade e desprezo pelos seus compatriotas, o seu snobismo, o seu look racista, a sua guerra com Derek Walcott e Paul Theroux; as suas fobias e psicoses (limpeza... limpeza), enfim, a sua confissão de como agrediu Margaret, amante argentina, numa relação sado-masoquista, "Até sentir a mão doer..."

Ou, com a mulher Pat, às portas da morte com um cancro, ter revelado numa entrevista ter sido, ao logo dos anos, um frequentador de bordéis, aquilo que em bom português se designa por um excelente putanheiro...

 

Mas a biografia revela também o seu génio literário, a capacidade de análise meticulosa que o ajudou a eleger o mundo como tema da sua obra. O primeiro escritor de origem indiana a receber um Booker Prize (In a Free State, 1973); o primeiro a escrever sobre as sociedades pós-coloniais, quando ainda havia muitas colónias por libertar. O homem que daria ao mundo uma obra-prima como "A Curva do Rio". Enfim, a escrita precisa de um homem a contas com o seu semelhante e uma doentia incapacidade de realização sexual.

 

Lyndon Kwayse Jonhson, poeta de origem jamaicana, dá uma bela descrição de Sir Vidia:

"É o exemplo típico de como a arte é capaz de ultrapassar o Homem; sempre que abre a boca, Naipaul só diz asneira, mas os livros são sempre fantásticos."

 

Nalguns aspectos, V.S. Naipaul fez-me lembrar o nosso saudoso João Varela (pseud. João Vário,  T Tiofe): a irrascibilidade e misoginia e algum complexo de superioridade que lhe eram conhecidos. Poucos sabem da sua zanga com o poeta Corsino Fortes, de longos anos, depois de este o ter apelidado de Poeta Negro Greco-Latino. O mesmo Corsino conta como numa viagem para Angola, o então neurocirurgião Varela dizia que esperava convencer as autoridades angolanas a permitir-lhe fazer experiências em pessoas, testando as suas teorias, com cujos resultados acreditava poder vir a receber o Nobel da Medicina.

 

 

Lembrei-me dele, também, pela qualidade superior da sua poesia e da enorme capacidade de análise teórica que o caracterizava.

publicado por Joaquim Arena às 10:37 | link do post | comentar