Segunda-feira, 08.06.09

Se, como disse Mário Fonseca, Arménio é filho de Pessoa, então é em casa do pai que devem estar expostos os manuscritos do filho.

 

A Casa Fernando Pessoa inaugurou hoje, na sua biblioteca, onde ficará patente até dia 20 de Junho, uma exposição de manuscritos inéditos e livros do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, galardoado com o Prémio Camões 2009.

Ver o resto da notícia Aqui

 



mardikepona às 22:56 | link do post | comentar

Quinta-feira, 04.06.09
 
 
 
Estavas à espera desta notícia?
Sim. Na última vez que estive aí, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, já se falava nisso.
Como reagiste?
Recebi um telefonema de alguém com sotaque brasileiro a dizer que eu tinha ganho o Prémio Camões e pensei: bom, o dia 1 de Abril, o das Mentiras, já passou, assim como o Carnaval, por isso deve ser mesmo verdade...
Que estavas a fazer, na altura?
Estava no computador do meu sobrinho a colocar os acentos no meu próximo livro...
Já tem título?
... O ministro da Cultura de Portugal também ligou, logo a seguir, a dar-me os parabéns. Mas o (poeta) Corsino Fortes ligou-me também a confirmar tudo e então aí eu fiquei mais descansado.
E que vais fazer com os 100 mil euros de prémio?
Ainda não pensei muito nisso... se calhar fumar um maço de cigarros a mais por dia... e vou oferecer um carro novo à minha noiva.
Achas que alguma coisa vai mudar na tua vida?
A minha vida? Calças jeans coçadas, chinelos de borracha como sempre, e sem esquecer o meu chapéu, claro... e a a franja e o cabelo pintado, também. Mas o título do meu próximo livro já to posso dar: “Poema, a Viagem, o Sonho”.
E já está pronto?
Foi integralmente escrito num telemóvel.
Telemóvel?
Sim. A uma média de dois, três textos por dia. Tem cerca de 120 poemas, entre curtos e longos. Pesa mais ou menos o mesmo que o livro dos 100 poemas da Sofia (de Mello Breyner Andersen)
É o teu quinto livro, não é?
Sim.
Não achas que é pouco para um Prémio Camões?
Olha lá, Juan Rulfo também não escreveu apenas dois livros (Pedro Páramo e Planície em Chamas) e não foi Prémio Nobel da Literatura? E Baudelaire? As Flores do Mal, colocados numa balança, pesam menos do que o meu próximo livro.
E já tens editor em Portugal?
Antigamente andava atrás deles. Agora acho que vou fazer um leilão...
Tens um livro publicado em Portugal,”No Inferno”, na Editorial Caminho.
Sim. Mas o Zeferino Coelho estava com problemas para o vender. Deu-me cem contos, na altura, mas nem sei ao certo se conseguiu recuperá-los.
Achas que ainda não tens nome, fora de Cabo Verde?
Alguém me disse, há pouco tempo: “ Se já tivesses editado no Brasil já terias ganho o Prémio Camões”. Mas agora as coisas mudam de figura.
O Prémio caiu-te de pára-quedas?
Para essa eu tenho uma boa resposta, escuta, escrevia-a mesmo esta manhã: “O mundo caiu-me em cima embrulhado num cheque de 100 mil euros...” (pausa) “eis uma boa razão para eu protelar a minha morte” (pausa), que tal?
E já pensaste no teu discurso na cerimónia da entrega?
Estou sem passaporte. Tenho passaporte português e cabo-verdiano, mas neste momento nenhum está válido. Mas isso eu trato em dois dias, não é?
E quando vens a Portugal?
Por mim ia já hoje. O único problema é ter que usar fato e gravata, nessa coisa da cerimónia. E se eu levar só o casaco? Podia vesti-lo sem enfiar os braços, como o Jaime Figueiredo. Mas estou a pensar em antecipar a minha ida. Ando muito cansado com esta coisa do Prémio Camões, sabes? Estou só a leite, desde ontem... e já fumei mais de quatro maços de cigarros.
 

 


mardikepona às 23:26 | link do post | comentar

 

Arménio Vieira, Prémio Camões 2009, vai ter a sua pacata rotina alterada nos próximos dias. As chamadas telefónicas e os pedidos de entrevistas dos jornalistas irão chover, é um facto. Para um homem pouco dado a entrevistas a situação anuncia-se, no mínimo, catastrófica. Refugir-se-á no seu “Castelo”, o andar misterioso que o poeta habita, no Plateau, a zona histórica da Cidade da Praia?
Tudo indica que não. Arménio Vieira não é dos que vive em busca de fama ou do estrelato. Será um incómodo, pois claro. E a sua pronta reacção à atribuição do Prémio: “Eu estava à espera de ganhar, não pensava era que fosse tão cedo” não deixa de conter um sedimento daquela vaidade salutar de quem não está para estas “miudezas” de prémios literários. A vida vivida uma manhã, uma tarde de cada vez. Sessenta e oito anos de idade, numa face jovial de poeta sem tempo.
Irá continuar a frequentar a sua segunda casa: a esplanada do Café Sofia, na Praça do Liceu, na Praia. E, como sempre, ocupará o centro das atenções dos amigos, colegas, literatos, populares, que ali se sentam atraídos por aquele olhar rebelde de eterno “Rimbeau das ilhas”. Nele vêem mais do que um simples poeta da terra. O escritor que um dia resolveu sair de Cabo Verde e escrever uma surprendente novela – O Eleito do Sol - passada no Antigo Egipto. E o deserto ali tão perto.
Apesar dos 100 mil euros embolsados com o Prémio, Arménio Vieira não deixará de surgir pela rua, quando o sol é mais clemente, de SG entre os dedos, sandálias ou chinelos, calças arregaçadas como um pescador de Raul Brandão (confesso  admirador do escritor português). Fará um aceno junto à barbearia da esquina, antes de se sentar na esplanada para mais uma tarde de imensa e sempre surpreendente prosa.
De um dos lados estarão aqueles  que querem continuar a auscultar a sua douta opinião sobre os resultados da última jornada do campeonato regional de futebol; que se dirigem ao mestre em crioulo e no seu prosaico crioulo de badiu branco escutam aquela prosa humorada de saber e ironia.
Do outro lado, estarão talvez o poeta lírico Mário Fonseca, ou outro literato, jornalista ou professor universitário da capital ou de passagem; aguardarão, avidamente, o seguimento de uma reflexão sui generis sobre os hábitos de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, ou de como Sócrates resolvia os seus dilemas pessoais.
E se o tema for – como habitualmente acontece - o mundo e as pessoas, os mais sortudos terão o privilégio de saber como eram as ruas de Samarcanda ou de Tashkent, nos anos setenta, e como era viajar pelas Repúblicas da Ásia Central, como jornalista, numa delegação do Partido Comunista da União Soviética. Se o mestre estiver inspirado, ficarão a saber como a Bíblia, lida numa cadeia da PIDE, aos vinte anos, pode ser incontornável companhia para a solidão e profundamente inspiradora para uma carreira literária.
Antes do sol se pôr, o cinema será inevitável: Brando, Fonda, Bogart, Rita Hayworth, Marilyn, Ford, Welles... frases inteiras memorizadas por este fanático de “Há Lodo no Cais” (as mangas viradas, imitando a estrela Brando/Terry Malloy ) e James Dean, mas também Johny Depp, Brat Pitt, Denzel Washington e Morgan Freeman.
Os filmes da sua vida passar-lhe-ão pelos olhos, numa alucinante e vertiginosa torrente de títulos: westerns,  realismo alemão, russo, italiano. A tarde continuará lenta e em viagem, por entre duas dezenas de cigarros comprados em pacotes a candongueiros de passagem e breves pausas para um “tete à tete” com alguma das suas “meninas” de ocasião. Vestígios, quem sabe, de paixões outrora avassaladoras, irresistíveis, pagas com dor e amizade, aliás como o próprio Arménio descrev, em tom confessional, no mais do que autobiográfico romance “No Inferno”.
Mas não se espere que ele vá falar da sua obra – dois livros de poemas (“Poemas” e “Mitografias”) e dois romances (“O Eleito do Sol” e “No Inferno”). A obra, aparentemente escassa, é lapidar, para ser digerida com o caldo do tempo. Própria de um autor evasivo e arredio a avanços intempestivos de editores e jornalistas, apressados agentes literários acidentais, preocupados com a sua mais que alietória produção.
No final do dia - depois de uma longa viagem por Hollywood, através dos problemas existencias de Pessoa, Grécia antiga, a enigmática revelação de São Paulo no caminho de Damasco -, Arménio Vieira perguntará as horas e dirá, erguendo-se: “Bem, meus senhores, está na hora do Comboio para Katanga...”. E levantar-se-á, de cigarro nos lábios, para regressar ao seu “Castelo”, onde o esperam mais horas de futebol e cinema, pela noite dentro, nos muitos canais de televisão, via antena parabólica - a última janela para a eternidade.
 
 


mardikepona às 23:24 | link do post | comentar

Segunda-feira, 11.05.09

Para o nosso cronista e escritor Germano Almeida, as verdades "são muitas" e escrever uma biografia qualquer implica sempre "ficar enquadrado num certo rigor histórico e de factos".

 

Entenda-se que rigor e ditadura de factos não são propriamente elementos que constem da escrita do autor de "O Testamento  do Sr. Napomuceno".

 

No segundo dia do colóquio Letras em Lisboa II, que decorreu no Teatro São Luiz e organizado pela Casa Fernando Pessoa, Germano Almeida dividiu o painel Literatura, história e biografia com os escritores Fernando Morais (biógrafo de Paulo Coelho) e Leonor Xavier, com a moderação da brasileira Lúcia Araújo.

 

Germano  refereriu a sua experiência que foi escrever Viagem pela História de Cabo Verde (editado em Portugal pela Caminho), em que o principal objectivo foi "escrever sobre a História de Cabo Verde numa linguagem mais próxima das pessoas". No entanto, confessa, quando acabou o livro "disse às pessoas para não acreditarem em tudo o que escrevi".  

 

Fernando Morais, jornalista e escritor brasileiro, falou da experiência que foi escrever uma biografia de Paulo Coelho, o escritor de língua portuguesa mais lido no mundo. "Fiquei sem saber como começar, pois que o Paulo Coelho é uma espécie de Mick Jagger dos livros, uma espécie de fenómeno pop".

 

Morais, também autor de uma biografia de Chateaubriand (um gigante da imprensa brasileira do século XX) contou como decidiu iniciar a vida de Paulo Coelho como se uma "câmera o seguisse num tour pela Europa Oriental.

 



mardikepona às 14:29 | link do post | comentar

Terça-feira, 24.03.09

 

 

No Salon du Livre de Luxembourg ouvia-se falar mais português e crioulo (Ferro Gaita presente+ Bar restaurante típico) do que francês ou alemão ou mesmo essa língua estranha e desconhecida chamada luxemburguês. Por falar nisso, o país é limpo, limpo até de mais, a cidade é linda, o centro histórico como que saído de um conto de fadas, com um Shrek a surgir a qualquer momento subindo a calçada.

 

Mas o povo não me pareceu feliz, apesar de ser o mais rico do mundo. Durante cinco dias pensei no assunto, intrigado. Até que descobri porquê. Não existem, por incrível que pareça, cantigas em língua nacional. Existem em francês e alemão. Um povo que não canta na sua própria língua não pode ser feliz. Sabemos bem do que estamos a falar.

 

No Salon, o Luandino divertiu-se e divertiu-nos, sorrindo com as barbas de um verdadeiro "Papa" Hemingway, pela pena e pelos dias que conheceu, estórias, por entre caminhadas matinais pela floresta. O António Gonçalves e o José, numa soirée memorável pela história do cinema.

 

E os primos sul-americanos espantados com a organização do evento e radiantes por conhecerem estes escribas de "habla" portuguesa, tão chegados aos seus costumes andinos, por incrível que pareça.

 

E, finalmente, a Paca Rimbeau, organizadora, anfitriã, de olhos muito anfíbios de tanta emoção.

 



mardikepona às 20:56 | link do post | comentar

Quinta-feira, 05.03.09

 

Salon du livre et des cultures 9éme
LuxExpo Luxembourg
 

De 12 a 16 de Março 2009

Samedi

[ 15h30 Rencontres avec les écrivains Dariush Baradari, Najat El Hachmi, Luandino Vieira, Amilcar Bettega, Joaquim Arena, José Jorge Lettria, Marie-Claire Clausse, Guy-Joseph Feller, Boris Maxant

 

VER PROGRAMA COMPLETO AQUI

 

                              Ferro Gaita, ao vivo, sábado 14

 



mardikepona às 19:54 | link do post | comentar

Domingo, 22.02.09

Para a comemoração do 10º aniversário estivemos 150 na terra de Eça de Queiróz, autocarro para lá autocarro para cá, comandados por Manuela Ribeiro e o Chico Guedes. Oportunidade para rever os editorialistas independentes de Tenerife, a malta do Baile del Sol, o Germano e o aniversariante Corsa (com um auditório cheio a cantar os parabéns), o Eduardo e o Jorge Arrimar.

 

Alguns testemunhos para a posteridade. Dez anos é só uma vez.

 

 

Cerimónia de abertura, com o público atento ao poema de Corsino Fortes "Conde pla' manhã nascê" 

 

 

Corsino Fortes lendo, pouco antes de se perder nos papéis, em busca do resto do poema. Acontece aos melhores.

 

 

Lançamentos de livros foram cerca de trinta, de todos os quadrantes da língua portuguesa e castelhana.

 

 

A escritora Telinda Gersão, à mesa do almoço.

 

O excelente cronista brasileiro Luís Fernando Veríssimo (filho do grande Érico Veríssimo, "Olhai os Lírios do campo", lembram-se?)

 

Germano Almeida refastelado no puf, ouvindo poesia

 

 

Manuela Ribeiro (organização) e Tito Exposito (Editor, Baile del Sol)

 

 

Angel e António (Editores, Baile del Sol)

 

 

 

Ao lado de Andrea Blanqué, do Uruguay, tentando esmiuçar o tema "O Medo ou o Fascínio do Desconhecido".

 

 



mardikepona às 18:38 | link do post | comentar

Domingo, 01.02.09

A forma como os espanhóis utilizam a palavra Narrador chega a causar alguma inquietação, mormente quando o sujeito em questão somos nós. Depois das apresentações chega-se ao "un narrador de gran calidad!" Da mesma maneira como os brasileiros banalizam  "márávilhoooso!", não sei se estão a entender. Se há palavra por que eu tenho respeito  Narrador é uma delas. Por isso, não posso evitar um certo pudor.

 

A primeira vez que vi um narrador a sério eu devia ter doze anos. Foi durante uma viagem de estudo à Siderurgia Nacional - das poucas coisas que valem verdadeiramente a pena na escola. Era um homem forte e determinado, entre os vários que trabalhavam no Alto Forno. Impressionou-me sobremaneira a forma como dominava o fluxo incandescente, que fazia descer por uma calha até se transformar numa futura barra de aço. Em cada dez segundos repetia aquele gesto com perfeição estudada.

 

Ali estava uma verdadeira narrativa. Palavras seriam despropositadas. Narrava com os movimentos medidos e pressurosos, envolto numa nuvem de fuligem. Foi a primeira narrativa de fôlego a que assisti. E agora que penso nisso, apercebo-me de que terá havido outras antes, talvez não tão intensas. Em São Nicolau havia uma forja que eu gostava de ir espreitar, à entrada de Ribeira Brava. Mas recordo-me particularmente de uma ida ao trapiche de caneca de esmalte na mão e olhar para um velho de olhos verdes e barba branca. Devolveu-me a caneca em silêncio, com a espuma da calda quente a transbordar. Continuou depois a tarefa de mexê-la, vagarosamente, com uma cana.

 

Um dia, quando atravessava uma rua de Moscavide, vi outro narrador desses. O Sol queimava-lhe no fato-macaco enegrecido e ele derramava brita, com uma pá, sobre o alcatrão fumegante. A mesma atitude, o mesmo silêncio. A mesma condição.

 

E não muito tempo depois, já adolescente, ficava à porta das oficinas, fascinado pelo trabalho de soldadura dos operários. A cicatriz indelével unindo chapas de aço maciças ou cosendo o ventre de navios, como uma assinatura de fogo. Um dia deixaram-me espreitar pela máscara de protecção e  vi o verde-vivo daquela frase incandescente desferir um arco de poesia.

 

Agora que penso nisso, dou-me conta de que narrar sempre teve que ver com o calor. Não um calor abstracto, transversal e unânime. Foi sempre um calor muito particular - selvagem e indómito. Um calor de corpos em fusão, de serena combustão, para o qual nada encaixa melhor do que a palavra inglesa "melting". "Melting" lembra o quê, na verdade? Mel, não é? Mel quente, melaço quente e escorregadio. Lava incandescente. O homem do Alto Forno manejando o embrião mole do aço duro e resistente. Devíamos adoptar essa palavra, uma espécie de Melar, para o português. Já temos o mel.

 

Narrar é melar, derreter, manejar o fogo.  Sem palavras. O homem e  a história do preciso instante exposta e absorvida pelos sentidos. Essa foi a minha primeira literatura. Aquela a que eu gosto mais de regressar. Que eu procuro nos livros que leio. Na verdade, a que um dia gostaria de poder igualar. 



mardikepona às 17:30 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 27.01.09

A pergunta: porque não existe ainda um PEN Club em Cabo Verde?

 

 

São mais de cem os países que constam na lista do PEN International, cujos romancistas, ensaístas, poetas e jornalistas beneficiam do intercâmbio em colóquios e encontros internacionais.

 

Cabo Verde possui uma literatura rica e variada e uma tradição de reflectir e pensar o mundo que intriga quem chega às ilhas pela primeira vez. Os seus autores, é verdade, estão reunidos numa associação que não olha a esforços para a promoção dos seus membros e a dignificação da literatura cabo-verdiana.

 

Mas num mundo globalizado como é o nosso, a cultura só tem a ganhar quando os seus agentes, criadores e promotores estiverem em contacto com os seus pares internacionais e puderem disfrutar de novas experiências e pontos de vista diferentes.

 

Para além do prestígio internacional que tem, o PEN está associado, desde a sua fundação, a ideiais humanitários e de liberdade. Atravessou o século XX ao lado daqueles que lutaram pela dignificação do Homem e a busca por um mundo mais justo e equilibrado.

 

A criação de um PEN Club de Cabo Verde permitirá aos seus escritores  levar a sua particular experiência a outros, a outras latitudes, outras sociedades, num mundo cada vez mais voltado para a descoberta de riqueza cultural.



mardikepona às 12:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 17.01.09

Como revela Patrick French, na sua extraordinária biografia de Sir Vidia Naipaul, "The World is What it is", a reportagem de Naipaul sobre Michael Abdul Malik, também conhecido por Michael X, mas Freitas de seu verdadeiro nome, é um dos melhores textos de não-ficção do Nobel da Literatura de Trindad e Tobago.

 

Para Magnus Linkater, editor do Sunday Times Magazine, o artigo não é mais do que " um dos melhores que publicámos durante a minha passagem por esse posto".

 

Apesar de praticamente desconhecido no mundo lusófono, Michael de Freitas (1935 - 1972), filho de um logista português da Madeira e de uma "bajan" -  natural de Barbados, foi o mais conhecido natural de Trindad e Tobago, nos anos 1960, nas Ilhas Britânicas. Depois de abandonar a família e emigrar para a Europa, Freitas fez um pouco de tudo no sub-mundo londrino, de proxenta até homem-de-mão de alguns poderosos. A época era a dos distúrbios nos bairros de emigrantes das Caraíbas, de várias cidades inglesas. E é assim que Freitas se vê, de um momento para o outro, promovido a porta-voz da comunidade negra imigrada, apesar do seu passado no mundo do crime.

 

Durante este período de agitação social, Malcolm X, líder da Nação do islão nos EUA, visita a Inglaterra e Micheal de Freitas muda o nome para Michael X e auto-intitula-se líder do movimento Black Power na Grã-Bretanha. O passo seguinte é a fundação da comuna Black House. A imprensa, ávida de líderes sociais à imagem da América, torna-se responsável pelo poder mediático que Michael X rapidamente ganha na sociedade inglesa. Nomes como Rolling Stones, John Lennon e Yoko Ono juntam-se ao das várias estrelas que fazem parte  do seu grupo de amigos e filantropos. Estes últimos chegam mesmo a doar uma porção do seu cabelo para ser leiloado, para fundos da Black House.

 

No início dos anos 1970, Michael X agora de novo conhecido por Michael Abdul Malik, a braços com problemas com a justiça na Grã-Bretanha, estabelece a sua comuna Black House na sua ilha natal, desta vez para prosseguir a luta dos seus irmãos negros contra o poder económico e social dos descendentes de emigrantes indianos, de onde V. S. Naipaul é originário.

 

Mas a aventura política de Michael atinge os seus limites quando ele próprio assassina um dos elementos do seu Black Liberation Army, Joseph Skerrit, depois de este se recusar a assaltar uma esquadra e a assassinar os polícias ali de serviço. Em 1972, Michael Abdul Malik é julgado e condenado à morte por enforcamento, em Port of Spain.

 

No seu livro, "Guerrillas", de 1975, V. S. Naipaul baseou o seu personagem Jimmy Ahmed em Michael de Freitas, X e Abdul Malik.

 



mardikepona às 14:31 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


Artigos recentes

Manuscritos de Arménio Vi...

Entrevista possível ao Co...

Arménio Vieira, Prémio Ca...

Letras em Lisboa: Germano...

Luxemburgo, terra lusófon...

9 éme Salon du Livre et d...

Correntes d'Escritas, 10ª...

Narradores

Um PEN Club para Cabo Ver...

Quem foi Michael de Freit...

Arquivo

Junho 2009

Maio 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Arquivado em

herman melville gees

la opinion tenerife

tenerife santa cruz feira da edição

tertúlia no arco do vasco

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO