Se, como disse Mário Fonseca, Arménio é filho de Pessoa, então é em casa do pai que devem estar expostos os manuscritos do filho.
A Casa Fernando Pessoa inaugurou hoje, na sua biblioteca, onde ficará patente até dia 20 de Junho, uma exposição de manuscritos inéditos e livros do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, galardoado com o Prémio Camões 2009.
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Arménio Vieira, Prémio Camões 2009, vai ter a sua pacata rotina alterada nos próximos dias. As chamadas telefónicas e os pedidos de entrevistas dos jornalistas irão chover, é um facto. Para um homem pouco dado a entrevistas a situação anuncia-se, no mínimo, catastrófica. Refugir-se-á no seu “Castelo”, o andar misterioso que o poeta habita, no Plateau, a zona histórica da Cidade da Praia?Para o nosso cronista e escritor Germano Almeida, as verdades "são muitas" e escrever uma biografia qualquer implica sempre "ficar enquadrado num certo rigor histórico e de factos".
Entenda-se que rigor e ditadura de factos não são propriamente elementos que constem da escrita do autor de "O Testamento do Sr. Napomuceno".
No segundo dia do colóquio Letras em Lisboa II, que decorreu no Teatro São Luiz e organizado pela Casa Fernando Pessoa, Germano Almeida dividiu o painel Literatura, história e biografia com os escritores Fernando Morais (biógrafo de Paulo Coelho) e Leonor Xavier, com a moderação da brasileira Lúcia Araújo.
Germano refereriu a sua experiência que foi escrever Viagem pela História de Cabo Verde (editado em Portugal pela Caminho), em que o principal objectivo foi "escrever sobre a História de Cabo Verde numa linguagem mais próxima das pessoas". No entanto, confessa, quando acabou o livro "disse às pessoas para não acreditarem em tudo o que escrevi".
Fernando Morais, jornalista e escritor brasileiro, falou da experiência que foi escrever uma biografia de Paulo Coelho, o escritor de língua portuguesa mais lido no mundo. "Fiquei sem saber como começar, pois que o Paulo Coelho é uma espécie de Mick Jagger dos livros, uma espécie de fenómeno pop".
Morais, também autor de uma biografia de Chateaubriand (um gigante da imprensa brasileira do século XX) contou como decidiu iniciar a vida de Paulo Coelho como se uma "câmera o seguisse num tour pela Europa Oriental.
No Salon du Livre de Luxembourg ouvia-se falar mais português e crioulo (Ferro Gaita presente+ Bar restaurante típico) do que francês ou alemão ou mesmo essa língua estranha e desconhecida chamada luxemburguês. Por falar nisso, o país é limpo, limpo até de mais, a cidade é linda, o centro histórico como que saído de um conto de fadas, com um Shrek a surgir a qualquer momento subindo a calçada.
Mas o povo não me pareceu feliz, apesar de ser o mais rico do mundo. Durante cinco dias pensei no assunto, intrigado. Até que descobri porquê. Não existem, por incrível que pareça, cantigas em língua nacional. Existem em francês e alemão. Um povo que não canta na sua própria língua não pode ser feliz. Sabemos bem do que estamos a falar.
No Salon, o Luandino divertiu-se e divertiu-nos, sorrindo com as barbas de um verdadeiro "Papa" Hemingway, pela pena e pelos dias que conheceu, estórias, por entre caminhadas matinais pela floresta. O António Gonçalves e o José, numa soirée memorável pela história do cinema.
E os primos sul-americanos espantados com a organização do evento e radiantes por conhecerem estes escribas de "habla" portuguesa, tão chegados aos seus costumes andinos, por incrível que pareça.
E, finalmente, a Paca Rimbeau, organizadora, anfitriã, de olhos muito anfíbios de tanta emoção.
Salon du livre et des cultures 9éme
LuxExpo Luxembourg
De 12 a 16 de Março 2009
Samedi
[ 15h30 Rencontres avec les écrivains Dariush Baradari, Najat El Hachmi, Luandino Vieira, Amilcar Bettega, Joaquim Arena, José Jorge Lettria, Marie-Claire Clausse, Guy-Joseph Feller, Boris Maxant
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Ferro Gaita, ao vivo, sábado 14
Para a comemoração do 10º aniversário estivemos 150 na terra de Eça de Queiróz, autocarro para lá autocarro para cá, comandados por Manuela Ribeiro e o Chico Guedes. Oportunidade para rever os editorialistas independentes de Tenerife, a malta do Baile del Sol, o Germano e o aniversariante Corsa (com um auditório cheio a cantar os parabéns), o Eduardo e o Jorge Arrimar.
Alguns testemunhos para a posteridade. Dez anos é só uma vez.
Cerimónia de abertura, com o público atento ao poema de Corsino Fortes "Conde pla' manhã nascê"
Corsino Fortes lendo, pouco antes de se perder nos papéis, em busca do resto do poema. Acontece aos melhores.
Lançamentos de livros foram cerca de trinta, de todos os quadrantes da língua portuguesa e castelhana.
A escritora Telinda Gersão, à mesa do almoço.
O excelente cronista brasileiro Luís Fernando Veríssimo (filho do grande Érico Veríssimo, "Olhai os Lírios do campo", lembram-se?)
Germano Almeida refastelado no puf, ouvindo poesia
Manuela Ribeiro (organização) e Tito Exposito (Editor, Baile del Sol)
Angel e António (Editores, Baile del Sol)
Ao lado de Andrea Blanqué, do Uruguay, tentando esmiuçar o tema "O Medo ou o Fascínio do Desconhecido".
A forma como os espanhóis utilizam a palavra Narrador chega a causar alguma inquietação, mormente quando o sujeito em questão somos nós. Depois das apresentações chega-se ao "un narrador de gran calidad!" Da mesma maneira como os brasileiros banalizam "márávilhoooso!", não sei se estão a entender. Se há palavra por que eu tenho respeito Narrador é uma delas. Por isso, não posso evitar um certo pudor.
A primeira vez que vi um narrador a sério eu devia ter doze anos. Foi durante uma viagem de estudo à Siderurgia Nacional - das poucas coisas que valem verdadeiramente a pena na escola. Era um homem forte e determinado, entre os vários que trabalhavam no Alto Forno. Impressionou-me sobremaneira a forma como dominava o fluxo incandescente, que fazia descer por uma calha até se transformar numa futura barra de aço. Em cada dez segundos repetia aquele gesto com perfeição estudada.
Ali estava uma verdadeira narrativa. Palavras seriam despropositadas. Narrava com os movimentos medidos e pressurosos, envolto numa nuvem de fuligem. Foi a primeira narrativa de fôlego a que assisti. E agora que penso nisso, apercebo-me de que terá havido outras antes, talvez não tão intensas. Em São Nicolau havia uma forja que eu gostava de ir espreitar, à entrada de Ribeira Brava. Mas recordo-me particularmente de uma ida ao trapiche de caneca de esmalte na mão e olhar para um velho de olhos verdes e barba branca. Devolveu-me a caneca em silêncio, com a espuma da calda quente a transbordar. Continuou depois a tarefa de mexê-la, vagarosamente, com uma cana.
Um dia, quando atravessava uma rua de Moscavide, vi outro narrador desses. O Sol queimava-lhe no fato-macaco enegrecido e ele derramava brita, com uma pá, sobre o alcatrão fumegante. A mesma atitude, o mesmo silêncio. A mesma condição.
E não muito tempo depois, já adolescente, ficava à porta das oficinas, fascinado pelo trabalho de soldadura dos operários. A cicatriz indelével unindo chapas de aço maciças ou cosendo o ventre de navios, como uma assinatura de fogo. Um dia deixaram-me espreitar pela máscara de protecção e vi o verde-vivo daquela frase incandescente desferir um arco de poesia.
Agora que penso nisso, dou-me conta de que narrar sempre teve que ver com o calor. Não um calor abstracto, transversal e unânime. Foi sempre um calor muito particular - selvagem e indómito. Um calor de corpos em fusão, de serena combustão, para o qual nada encaixa melhor do que a palavra inglesa "melting". "Melting" lembra o quê, na verdade? Mel, não é? Mel quente, melaço quente e escorregadio. Lava incandescente. O homem do Alto Forno manejando o embrião mole do aço duro e resistente. Devíamos adoptar essa palavra, uma espécie de Melar, para o português. Já temos o mel.
Narrar é melar, derreter, manejar o fogo. Sem palavras. O homem e a história do preciso instante exposta e absorvida pelos sentidos. Essa foi a minha primeira literatura. Aquela a que eu gosto mais de regressar. Que eu procuro nos livros que leio. Na verdade, a que um dia gostaria de poder igualar.
A pergunta: porque não existe ainda um PEN Club em Cabo Verde?
São mais de cem os países que constam na lista do PEN International, cujos romancistas, ensaístas, poetas e jornalistas beneficiam do intercâmbio em colóquios e encontros internacionais.
Cabo Verde possui uma literatura rica e variada e uma tradição de reflectir e pensar o mundo que intriga quem chega às ilhas pela primeira vez. Os seus autores, é verdade, estão reunidos numa associação que não olha a esforços para a promoção dos seus membros e a dignificação da literatura cabo-verdiana.
Mas num mundo globalizado como é o nosso, a cultura só tem a ganhar quando os seus agentes, criadores e promotores estiverem em contacto com os seus pares internacionais e puderem disfrutar de novas experiências e pontos de vista diferentes.
Para além do prestígio internacional que tem, o PEN está associado, desde a sua fundação, a ideiais humanitários e de liberdade. Atravessou o século XX ao lado daqueles que lutaram pela dignificação do Homem e a busca por um mundo mais justo e equilibrado.
A criação de um PEN Club de Cabo Verde permitirá aos seus escritores levar a sua particular experiência a outros, a outras latitudes, outras sociedades, num mundo cada vez mais voltado para a descoberta de riqueza cultural.
Como revela Patrick French, na sua extraordinária biografia de Sir Vidia Naipaul, "The World is What it is", a reportagem de Naipaul sobre Michael Abdul Malik, também conhecido por Michael X, mas Freitas de seu verdadeiro nome, é um dos melhores textos de não-ficção do Nobel da Literatura de Trindad e Tobago.
Para Magnus Linkater, editor do Sunday Times Magazine, o artigo não é mais do que " um dos melhores que publicámos durante a minha passagem por esse posto".
Apesar de praticamente desconhecido no mundo lusófono, Michael de Freitas (1935 - 1972), filho de um logista português da Madeira e de uma "bajan" - natural de Barbados, foi o mais conhecido natural de Trindad e Tobago, nos anos 1960, nas Ilhas Britânicas. Depois de abandonar a família e emigrar para a Europa, Freitas fez um pouco de tudo no sub-mundo londrino, de proxenta até homem-de-mão de alguns poderosos. A época era a dos distúrbios nos bairros de emigrantes das Caraíbas, de várias cidades inglesas. E é assim que Freitas se vê, de um momento para o outro, promovido a porta-voz da comunidade negra imigrada, apesar do seu passado no mundo do crime.
Durante este período de agitação social, Malcolm X, líder da Nação do islão nos EUA, visita a Inglaterra e Micheal de Freitas muda o nome para Michael X e auto-intitula-se líder do movimento Black Power na Grã-Bretanha. O passo seguinte é a fundação da comuna Black House. A imprensa, ávida de líderes sociais à imagem da América, torna-se responsável pelo poder mediático que Michael X rapidamente ganha na sociedade inglesa. Nomes como Rolling Stones, John Lennon e Yoko Ono juntam-se ao das várias estrelas que fazem parte do seu grupo de amigos e filantropos. Estes últimos chegam mesmo a doar uma porção do seu cabelo para ser leiloado, para fundos da Black House.
No início dos anos 1970, Michael X agora de novo conhecido por Michael Abdul Malik, a braços com problemas com a justiça na Grã-Bretanha, estabelece a sua comuna Black House na sua ilha natal, desta vez para prosseguir a luta dos seus irmãos negros contra o poder económico e social dos descendentes de emigrantes indianos, de onde V. S. Naipaul é originário.
Mas a aventura política de Michael atinge os seus limites quando ele próprio assassina um dos elementos do seu Black Liberation Army, Joseph Skerrit, depois de este se recusar a assaltar uma esquadra e a assassinar os polícias ali de serviço. Em 1972, Michael Abdul Malik é julgado e condenado à morte por enforcamento, em Port of Spain.
No seu livro, "Guerrillas", de 1975, V. S. Naipaul baseou o seu personagem Jimmy Ahmed em Michael de Freitas, X e Abdul Malik.

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